07. O despertar de Zafirina, especial musical

Publicação: 20 de junho de 2010

Zafirina despertou após uma semana dopada pelo chá de cogumelo selvagem. Num estado intermediário de consciência, calçou um salto alto de Ratesuda e saiu nua e cambaleante pelo quarto, imaginando-se no palco de Flashdance. Era sua noite de apresentação. A nota dos jurados poderia mudar o seu destino. De uma empregada desamparada poderia virar uma star e fazer a próxima novela das oito – Páginas da Vida Doméstica. Zafirina ensaiou alguns passos em cima da mão de Inácio, ainda adormecido, e se jogou no meio da boate, joelhos deslizando pelo chão, no pior cover de What a feeling de toda a história da literatura fantástica.

Zafirina piruetava no salto prateado de tiras roxas três números maior do que seu pé, sacudindo sua nudez na cara das strippers extremamente chocadas.

– Que isso, cara, nem no meu pior pileque eu tirei tudo… – disse a lontra depilada de cinta-liga e corselete, entornando meia garrafa de licor de jurubita, uma planta exótica de Fandonland.

Zafirina seguiu rodopiando, inventando passos que desafiavam a gravidade e o bom gosto. Quando pegou a cadeira e sentou de pernas abertas, Ratesuda resolveu dar um basta e enfiou-lhe um tapão no meio das ventas. O transe terminou assim que as conchinhas que Zafirina tinha no lugar dos dentes caíram no chão.

– Minhas conchinhas, minhas conchinhas! – disse, transtornada – Ainda mora um casal de moluscos dentro delas!

Ratesuda, ligeiramente arrependida, ajudou Zafirina a levantar, catou as conchas e encaixou de volta na boca da faxineira com um golpe de caratê. Depois, tascou-lhe um beijo de língua para verificar se havia outros dentes soltos. Por sorte, estava tudo bem.

– Nossa, Ratesuda, que poder!
– É, baby, quem pode pode, quem não pode apanha.
– O que aconteceu comigo? – perguntou Zafi, percebendo enfim sua nudez.
– Eu também não sei, mas deve ter sido muito ruim pra você ser feia desse jeito!
– Hahahaha… – risadas gerais de strippers bêbadas e com cheiro de cachaça.
– Estou falando de minhas roupas.

Ratesuda achou por um momento que Zafirina estivesse desmemoriada, mas lembrou que ela era burra mesmo. Explicou da chegada, do frio, da hipotermia. E quer saber o que mais, estava na hora de contar a verdade e falar de Lucy e Suzete.

– Zafi, eu tenho uma boa notícia e uma má notícia para você. Suzete e Lucy estiveram por aqui. Eu as achei perdidas na floresta, dei carinho, dei abrigo, dei novas roupas, um novo penteado, dei um perfume, aluguei quartos e disse que com seis meses de trabalho elas conseguiriam me pagar. Com isso, as duas começaram a trabalhar aqui na boate fazendo strip e atendendo aos clientes, e estão mais rodadas que saia de baiana. No dia que você chegou elas estavam enterradas no gelo por motivos que não posso contar e acabaram sendo sequestradas pelo Babento, um mago ainda pior do que o Matusa Morte Súbita.
– Nossa, Ratesuda, como você gesticula bem os lábios, é tão sexy ver os bigodes balançando.
– É só isso que você tem a dizer, Zafi?
– Claro que não, me prepara mais duas doses daquele chá de cogumelo que eu estou com o estômago roncando.
– Zafirina, sua desalmada!

Zafirina caiu em prantos.  Na verdade estava disfarçando seu estado de choque com as notícias. Conhecia as meninas desde bebês e sentiu que falhava na missão de protegê-las.

– Desculpe, Rata. Estou nervosa, prossiga por favor, me conte a boa notícia.
– Essa era a boa notícia.

A informação foi dolorosa demais. Zafirina pegou o banquinho do bar, ameaçou tacá-lo nas dançarinas, fez um malabarismo em torno dos ombros, amarrou uma toalha de mesa em volta da cintura, jogou as mãozinhas mal-cuidadas para o alto, começou a sacudir os joelhos e a cantar “C´mon babe, Why don’t we paint the town? And all that jazz! I’m gonna rouge my knees and roll my stocking down, and all that jazz!”.

Ainda mais espantadas, as meninas foram puxando as toalhas, rasgando meias arrastão, estalando os dedos e se juntando a multitalentosa Zafirina na encenação de Chicago.
Malandra que só, Ratesuda sacou sua câmera amadora e começou a filmar. Já podia ver a expansão da boate, um novo palco, nada mais de bêbados pobres bebendo fiado. A concorrência iria falir. Principalmente o odiado TravasPianoBar. Ratesuda viraria uma empresária de sucesso e Zafirina iria para a Pobreway, arrassar com peças de teatro!

– Escuta Zafi, será que dá pra repetir a última cena, acabou a fita.
– Eu não consigo, Rata, eu não consigo… eu preciso resgatar minhas princesinhas virginais das mãos do Babento.
– Bem, falando em virginal, eu fiquei te devendo a notícia ruim.
– A Suzete está grávida.
– Nossa, Zafirina. Você teve um sonho premonitório? Será que a estadia no Fandonland está despertando poderes sobrenaturais?
– Não, ô tonta. Eu escutei atrás da porta, ou achou mesmo que eu estava em coma? Aproveitei para tirar umas férias. Desde que comecei a trabalhar naquela casa que não tenho uma noite tranqüila de sono. Bebi mais do que tromba de elefante e caí foi é de ressaca. Pode olhar o seu frigobar, está tudo vazio.
– E o Inácio?
– Ah, ele está em coma mesmo. Cada vez que entrava no quarto de uma das suas dançarinas era um tal de coma pra lá coma pra cá, como aqui e ali. Deve ter emagrecido uns dez quilos. Considerando que já tinha pouco… mal consegue levantar do colchão, que aliás é um desconforto só, hein sua mão-de-vaca? Nem para catar umas folhas de bananeira e fazer um colchão trançado.

Ratesuda não arregalava os olhos desse jeito desde a primeira linguada de Saporra. Zafirina, mesmo sem vidência, antecipou o soco com pirueta e duplo twist carpado, conseguindo fazer um sorrisinho amarelo cariado, enquanto as conchinhas voltavam a voar pelo salão.
Banguela e com uma dor terrível, nem sentiu o chute na bunda que tomou ao ser jogada no meio da neve.
– E Inácio? E minhas conchinhas?
– No Inácio eu dou um trato. As suas conchinhas eu vou doar para a caridade.

E então, cuspindo neve, Zafirina viu a porta do Clube do Potter ser fechada em sua cara. Estava prestes a começar a cantar mais uma música desafinada, quando viu Saporra de pé, observando pequenos castores que pulavam uma corda estendida e murcha também conhecida como sua língua pós-Babento. De longe, era possível ouvir o coral de castores fanhos a gritar “salada, saladinha, bem temperadinha, com salsa e cebolinha, um, dois, três!”.



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